
ENTREVISTAS
Assista a chegada da Imagem de Nossa Senhora em Porto Alegre
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Saravá! A Sorte Negra
Santos e imagens de Quimbanda dividem a mesma prateleira na Casa Flora Reino Oxalá
Quem caminha pelo Mercado Público de Porto Alegre, mal pode imaginar a sua áurea de misticismo. Antes de sua restauração e expansão, o mercado abrigava uma árvore centenária, bem em seu centro. Aquele local, tornou-se o Assentamento de Bará- onde a entidade Bará 'baixou' pela primeira vez em Porto Alegre. Os escravos colocavam as oferendas nas raízes da árvore. Até hoje, as festas de Nossa Senhora dos Navegantes,entre outras, são sinc
Assentamento de Bará: somente um local de passagem em dia de semana no mercado público
Emerson Waner de Xangô Agandju, 34, é de religiosidade de matriz africana e militante da ONG Axé, Arte e Cidadania. No Mercado Público de Porto Alegre, local escolhido pelo nosso entrevistado, conversamos sobre alguns aspectos do panorama religioso afro-gaúcho.
(Ouça a entrevista na íntegra)
Sorte ou Revés: Você acha que as pessoas acreditam num Orixá para ter sorte na vida? Elas fazem as coisas do jeito que os orixás pedem para fazer?
Emerson Waner de Xangô Agandju:
A gente não pode dizer certo que todo mundo faz certinho. Em todas as religiões tem gente que faz as coisas erradas, mas não é culpa da religião. No meu ponto de vista, em relação à sorte, eu acho que ela existe, mas as pessoas que freqüentam e praticam a nossa religião não estão aqui por sorte. Até porque a nossa religião não ajuda a mudar a vida de ninguém. Ela simplesmente ajuda a passar pelo o que se tem que passar aqui na Terra e preparar o teu espírito para uma nova encarnação. Esse é o objetivo da nossa religião. E outra coisa que a gente tem muito forte é a caridade. Nossa religião prega à caridade para com as pessoas e as ajuda em doenças, enfim, paz de espírito. Mas não tem o objetivo de procurar sorte. A sorte é outra coisa.
Sorte ou Revés: Qual é o significado das encruzilhadas e do que é feito exatamente nas encruzilhadas?
E.W. de Xangô Agandju:
Aqui no Rio Grande do Sul, mais especificamente, há uma particularidade em relação aos outros Estados na religiosidade de matriz africana. Aqui a gente tem diversos cultos de Nação que é o africanismo. A gente tem a nação Oió, entre outras Nações. Essas Nações divergem entre si. Na época em que os escravos foram trazidos para Brasil, os mercadores traziam um de cada tribo porque era mais fácil até para eles não se entenderem na comunicação e não haver um motim. Aí já começam as diferenças porque cada tribo tinha uma doutrina e um rito de adorar e saudar o seu Orixá. O Orixá trabalha com os elementos de natureza, terra ar e mar. A encruzilhada gira mais para o Bará que é um orixá da Nação. Na nossa ideologia religiosa é quem cuida dos caminhos. Portanto, o lugar onde se coloca uma oferenda para o Bará é uma encruzilhada, um ponto de energização dele (dois caminhos que se cruzam). Mas não é como se vê hoje, que os caras largam (oferendas) nos asfalto. A gente larga em dois caminhos que se cruzam de preferência de chão batido, com menos fluxo de pessoas e carros.
Além da Nação, há outro segmento que é mais do Rio Grande do Sul que é a Umbanda. A Nação Africana trabalha com a energia do Orixá, não existe incorporação e sim ocupação. Iemanjá é tu chegar na beira do mar e sentir a energia das águas. Na Umbanda se trabalha com incorporação. Espíritos que viveram na Terra e por cumprir seus ciclos de reencarnações tendo uma passagem bem evoluída, eles vem na linha de espíritos mentores que as pessoas incorporam. Nas encruzilhadas se larga para o Orixá do Barah (ponto de energização do Cruzeiro) e para a linha de Exú, um terceiro segmento religioso do Rio Grande do Sul.
Na Linha de Exú, há também espíritos que cumpriram seus ciclos de encarnações mas não conseguiram atingir um grau de luz, claridade e maturidade espiritual. Eles vêm na tradicional Quimbanda. Desses espíritos, 90% respondem na encruzilhada. Coloca-se a oferenda na encruzilhada, ponto de energização. Essas entidades são muito utilizadas para praticar o bem. Tudo que eles fizerem de bom eles atingem uma evolução que é o seu objetivo real. Não têm a luz, a procuram. Diferente da Umbanda e da Nação que têm o espírito de luz e dão a luz.
Como em qualquer religião vai da sua dedicação, da sua fé. Há uma doutrina a seguir, um dogma, um rito. Da mesma forma nós temos o nossos que são praticados com fé, dedicação e respeito.
Sorte ou Revés: Há um preconceito muito grande com essa religião. Até mais que com muitas outras religiões. Umbanda trabalha com a questão de energia, com a solidariedade e de qualquer forma as pessoas têm medo, preconceito e acham que é uma coisa do mal. Você tem algum preconceito com a relação até outro tipo de religião?
E.W. de Xangô Agandju:
Eu trabalho com religião africana há dezenove anos. Deve haver muitas pessoas que sabem muito mais de religião que eu, entendem muitas coisas e devem ter algum conceito diferente. Eu me dedico muito à minha religião, pesquiso e estudo muito. Mas se eu quero conhecer e discutir religião, tenho que me dedicar fazendo seminários com outras religiões. Discriminação sempre vai existir em qualquer religião que tu fores freqüentar. Nenhuma religião é ruim, as pessoas que estragam. Tem pessoas que denigrem a imagem da nossa religião perante a sociedade – às vezes por falta de informação, conhecimento. Algumas entram na religião por vaidade, muitas se envaidecem da religião que freqüentam, o que é errado. Mas eu não tenho discriminação com nenhum tipo de religião. Muito pelo contrário, me dou com os vários segmentos. Tudo que fizer bem feito com fé é correto.
A nossa discriminação é bastante em função do sacrifício. O pessoal diz “olha o batuqueiro”. Primeiro, não existe "o batuqueiro". A gente tem uma ONG que tem os fóruns religiosos de matriz africana em Porto Alegre, demandamos várias políticas de igualdade de direitos tanto racial quanto religiosos. É uma conquista na Câmara de Vereadores, é um direito constitucional a liberdade de credos. Cada credo tem seus dogmas, o nosso prega o sacrifício de animais para agradar o Orixá. Mas não é que tu vai sacrificar o animal e colocar na rua. Não funciona assim. Existem sensacionalistas que fazem isso, mas a religião não prega isso. A única coisa que se usa desse animal é o sangue, que é o maior transmissor da energia. O resto da carne é limpa, assada e as pessoas comem.
O Orixá é o espírito de muita luz e de muita grandeza na Nação. A Umbanda se assemelha muito ao Espiritismo, mas nós damos nomes aos bois e eles não dão. No meu entendimento, espírita trabalha só com Egum, espírito que veio na Terra e morreu. Eles doutrinam esses espíritos e encaminham para um determinado local no astral. Nós fizemos da mesma forma, encaminhamos o espírito que veio pedir ajuda, doutrinamos ele. Só que nós damos nomes para as coisas. O espiritismo não dá. Quando dizem nossa religião trabalha com espíritos menos evoluídos, realmente trabalha. O Exú realmente é menos evoluído. Nós trabalhamos esses espíritos para que eles atinjam uma evolução. A ajuda tem que ser dada para todos: para os menos evoluídos e para os mais evoluídos.
Sorte ou Revés: Qual foi o motivo de marcar o encontro aqui no Mercado Público?
E.W. de Xangô Agandju:
O Mercado Público é um lugar de referência para a religiosidade africana aqui em Porto Alegre. O centro do Mercado Público é um Cruzeiro (dois caminhos que se cruzam). E ali no centro do Mercado Público tem uma obrigação enterrada de um Orixá que abre os caminhos, que cuida do movimento, que é dono do ouro. Não vou poder te precisar a data que essa obrigação foi enterrada ali. Mas posso te dizer que já faz mais cem anos que foi enterrada por um escravo. Nada melhor que te trazer aqui, que é um lugar ponto, raiz em Porto Alegre.
Teria outros lugares em Porto Alegre. Estamos brigando com a prefeitura para tombar como patrimônio histórico e transformar o Largo Zumbi dos Palmares numa referência do poço de religião para que se faça atividades religiosas de todos os segmentos de matriz africana.
Até tem um obrigação que se faz na Nação quando tu faz o chão (deitar para o Orixá, em respeito a ele por determinados dias). Quando você levanta, uma das obrigações é passear pelo Mercado Público, que é o lugar do movimento, do comércio, do axé. Tudo que se refere à religião eu gosto que seja no Mercado Público.
Sorte ou Revés: Você é militante da ONG Axé, Arte e Cidadania. Que tipo de trabalho ela realiza?
E.W. de Xangô Agandju:
A ONG axé existe já há três anos e executa diversos trabalhos. A gente trabalha com oficinas de corte e costura, de dança afro, de Hip Hop, trabalhamos com políticas sociais, geração de emprego e renda. Estamos tentando desenvolver projeto para colocar um telecentro e informatizar as crianças. A gente tem uma Companhia de dança que é parceira da ONG, uma companhia de dança afro com apresentações, oficinas: culinária, costura afro. São vários trabalhos sociais para a comunidade mais carente.
A ONG fica na rua Dr. Hermes Pacheco, número 59, no bairro Hípica, na Zona Sul.
A metáfora do cavalo é utilizada nas religiões afro quando um orixá ‘baixa’ no corpo de um dos participantes das cerimônias religiosas.
Mirian Fistcher, jornalista gaúcha do veículo O Estado de São Paulo, soube aproveitar os nuances do “Santo Forte”. Por aproximadamente 10 anos, a jornalista acompanhou de perto as diferentes celebrações das religiões umbanda, quimbanda e batuque no Rio Grande do Sul. O produto dessa pesquisa transformou-se na exposição de fotos no Átrio do Santander Cultural. Com 31 registros, Mirian resgata as peculiaridades que os gaúchos adicionaram aos cultos: polenta como oferenda, churrasco na vala para Ogun e pai-de-santo pilchado com bombacha.
Tradição na época da festa de Iemanjá, as praias de Tramandaí e a orla de Ipanema em Porto Alegre ficam minadas de pratos com velas para os santos do mar. A frente do Centro Administrativo, 12 entidades esbanjaram elegância com as suas vestimentas coloridas e os ornamentos de Orixás. Ciganos, exus e pomba-gira também tem seu espaço marcado com o contraste das cores vermelha e preta. Crianças, adultos e muita simbologia foram clicadas por Mirian. A exposição também traz polêmica. Um vídeo com imagens de um batismo de sangue, a cerimônia que introduz crentes a religião Umbanda, incomodou muitos visitantes. A cena compreende um homem sentado no chão, semi-nu, coberto de penas e sangue de uma galinha que estava sendo degolada.
Considerada sagrada, a cerimônia não pode ser visualizada por leigos. Porém, Mirian afirma que recebeu autorização de uma entidade para fotografar.
Inédito no Estado, a exposição inova ao mostrar cenas de uma vertente religiosa que está em ascendência por aqui. Enquanto no Brasil houve uma queda de 0,3 % nas pessoas que se declaravam de religião afro, no Rio Grande do Sul houve um crescimento de 1,2 % para 1,6%.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
No que o Brasil acredita?
As caveiras de marsupiais, para os povos indígenas do Alto Solimões, espantam os maus espíritos.Museu do Índio -Manaus, Amazonas
Mercado Ver-O-Peso- Belém, Pará
Igreja Senhor do Bonfim- Salvador, Bahia


